Com que bolsa que eu vou mesmo?

A ideia dos textos publicados aos domingos é que os colaboradores escrevam sobre assuntos da vida. Afinal, é na vida que usamos a moda

A história de hoje foi escrita por Marcelle e conta um dia na vida de uma mulher, formada em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com mestrado na Inglaterra,  mãe de três filhos, casada com um australiano e que aos 35 anos tenta vencer a burocracia australiana (que não quer reconhecer como válidos seus diplomas universitários)  para ter o direito de exercer sua profissão (de professora) naquele país.

Eu só me pergunto: Como será que essa história vai acabar? Por telefone Marcelle disse que dia 19 saberemos.

Helena

 

Esse texto, sem grandes pretensões será somente um desabafo de alguém, cuja vida é tão corrida que mal tempo tem para pensar em acessórios.

 

Esse é para os muitos que, como eu, pensavam que concluir uma boa faculdade, com boas notas, e ainda em três anos e meio, ao invés de quatro e para quem pensa que um mestrado na Inglaterra terá um peso incalculável no currículo.

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Para quem pensa que é professor, médico, enfermeiro, e que tem 10, 15 anos de experiência no ramo, aqui vai uma surpresa.

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Mude para outro país, e tente exercer sua profissão.

O primeiro obstáculo, é claro, é providenciar toda a documentação. Seria mais fácil me livrar da celulite. Traduzi-la, uma Luis Vitton e meia. Preencher os inúmeros formulários, que são tão infinitos quanto as canetas bic. Escrever a tal carta de apresentação e dizer porque quer seu diploma reconhecido (Para emoldurar na parede, fofo). Depois, é claro, o documento enviado vai e volta, não tão rápido como as tendências da moda.

Aí chega o grande dia, você tem que ir lá, pessoalmente, fazer aquilo que todos fingem saber o que é.

É, porque existem coisas que são, não dá para explicar. Quem é você? Como se veste? Prove. Prove que é advogada falando comigo, não exercendo sua profissão. Prefiro provar a tese de que o ovo nasceu antes da galinha.

Após me preparar incansavelmente, entre fraldas e mamadeiras, entre louças e roupas (você mora fora, não tem empregadas, faxineiras ou ninguém que possa te dar uma mãozinha), você pensa na roupa que vai vestir, lava, passa e pendura. Depois arruma o cabelo, você mesma (que saudade do salãozinho quebra-galho), faz as unhas (um processo que dura uns dois dias, uma mão tem que estar livre para atender as crianças).

E enquanto toma banho pensa COM QUE BOLSA EU VOU? Tarde demais para adquirir uma que seja neutra para esse evento, nem muito grande, nem muito pequena, nem tão informal quanto a do uso diário, nem tão chique quanto as da sua prateleira que saem para dar uma volta nos casamentos e bailes (estão lá há tanto tempo que devem estar mofadas).

 

Decido colocar a carteira dentro da pastinha de couro que comprei na feira de Ipanema anos atrás, sem ter medido se um lap top caberia lá… Decidi, mas não executei.

Saí apressada, escondida das crianças para que não seja torturada com a imagem dos choros na viagem ao destino desconhecido.

Esqueci a bolsa! Lembrei-me uma hora depois. Que sentimento de estar nua, sem lenço nem documento. A primeira coisa que pensei foi como repor o batom? Não posso aceitar o café nem a água (que ingenuidade achar que iriam me oferecer alguma coisa, pensei 4 horas depois!).

Como vou entrar no prédio sem documentos? E se um policial me parar no caminho?

O nervosismo começou aí e pelo menos ele não me abandonou feito a coragem, a segurança, a certeza de que eu era mesmo quem eu era.

Oi pessoas, eu sou professora, essa cópia autenticada foi (mesmo) dos 3 anos e meio que passei (ralando) na Universidade Federal (com todas as vantagens e desvantagens que vocês não iriam entender nem se eu tivesse lhes apresentado uma dissertação, eu até tinha que levar meu rolo de papel higiênico porque não tinha nos banheiros, por exemplo).

Eu trabalhei como professora nessas escolas aí, as datas coincidem porque o professor, no Brasil, tem a oportunidade de trabalhar pela manhã, tarde e noite, se desejar (para não passar fome). Essas cartas de referência, gentilmente oferecidas pelos meus antigos empregadores (após inúmeros e-mails e ligações DDI), são autênticas e vocês podem mesmo contactá-los se precisarem (good luck with that).


E aí, os oito sujeitos que não trocam nenhum olhar durante sua breve explanação acordam para metralhar as perguntas que são mesmo aquelas que eles tinham formulado anteriormente, talvez enquanto dirigiam para esse venue, são perguntas com respostas formadas para realmente te convencer que o Brasil não é um país que oferece uma educação que possa ser equiparada com nada além dos outros países em desenvolvimento (como os da África, Afeganistão, Paquistão, Índia…) e que sua mera experiência (15 anos) em escolas foi sucinta demais para lhe dar essa carteirinha com sua foto que serve como ticket para passear nos portões das escolas e ser considerada para uma possível vaga (que não consegue ser preenchida por seus cidadãos).

Esqueci minha bolsa, como vou pagar o pedágio na volta?

Por pior que seja ter um diploma não reconhecido, não há nada mais desolador para uma mulher do que não ter a sua bolsa, nem que seja uma da Le Postiche, de camelô ou de tricô que sua tia fez e cobra ver você usando. O resto é que é acessório!

 

 

 


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14 respostas para : Com que bolsa que eu vou mesmo?

  1. Danny disse:

    Amiga, amei seu texto, nem tanto pelo conteudo dramatico, o qual me deixou um tanto revoltada, mas pela forma como vc escreveu.Você é uma senhora escritora e deveria, na minha opinião, seguir essa carreira!!!! um grande beijo
    Danny

  2. Marcelle Esteves disse:

    As fotos ficaram incriveis, que trabalho de alto nivel de voces. Adorei. bjs

  3. Marcelle Esteves disse:

    DANI, AMIGAS COMO VOCE COMPRAM TODAS AS EDICOES DOS MEUS LIVROS SO PARA QUE EU ME SINTA MELHOR! ESSA E PARA TODOS OS SEUS ALUNOS, A MELHOR PROFESSORA QUE JA CONHECI! QUEM DEIXA DE LADO A PROFISSAO DE DENTISTA PARA EXERCER O MAGISTERIO?SO QUEM TEM MUITO TALENTO E AMOR A PROFISSAO MESMO!BJS

  4. MARIA HELENA disse:

    que texto incrível; se não fosse verdade daria até para achar alguma graça.Ainda bem que este é um dos textos a encenar de apenas um dos personagem que você comprou para o teatro desta vida; existem varios outros personagens com os quais você já ganhou o Oscar, mesmo que esses não comprem arroz e feijão ( como diz o Beto da Monica), compram, ou deveriam comprar, autoadmiração: amiga leal,beleza, doçura,super mãe, guerreira,mulher coragem,mulher livre e esse “tipo Marcelle” que só você tem. Se eu soubesse, soubesse mesmo, que tudo passa,as coisas teriam sido menos sofridas. AVANTI !!!!

  5. Jill disse:

    Que dura realidade, amiga! Consigo imaginar o que muito disso representa pra você… o esforço em se dividir entre tantos papéis, a superação de exceder o papel de mãe quando essa tarefa nos demanda 24/7, tudo o que passamos até conquistarmos cada um de nossos diplomas, nossa! A Maria Helena (que não sei quem é) falou muito bem. Mas persista. Aqui em Minas eu tb sou um pouco outcast, mas depois que você conseguir entrar por uma porta tenho certeza que muitas outras se abrirão e então você passará a ter escolhas!

    Sobre as suas linhas, destaque para “não há nada mais desolador para uma mulher do que não ter a sua bolsa(…). O resto é que é acessório!” Brilhante!

    Grade beijo e boa sorte!
    Jill.

  6. Marcelle Esteves disse:

    Maria Helena, que lindo seu comentario, como ele somente Mario Quintana em o RELOGIO DO CORACAO. Ja leu? Lindissimo!bjs com carinho!

  7. Lourdes Darwin disse:

    Lindinha, estou aqui torcendo por você. E você escreve muito bem, tem talento! Um grande beijo e boa sorte!

  8. Gabriela disse:

    Muito bom o texto, mesmo! Bjos

  9. Marcelle Esteves disse:

    Quem bom ver todas por aqui. Jill, talento tem voce!Dia 19 escrevo outro contando o resultado dessa novela!bjs

  10. Dani disse:

    Ah, lendo o texto – que tá show – consigo ver vc. passando por tudo isso! Mas vc. é incrível e tenho certeza q. vai conseguir o que quer – mesmo diante desse cenário digno de Kafka!
    bjs

  11. Eunice Sarmet disse:

    Comadre Marcelle, mais paciência com os gringos, afinal se eles falam enrolados, imagina como eles pensam…
    Bem, depois de uma passadinha em Portugal, eu só poderia te consolar assim.
    Carinhos e insista, persista e volte, pois estou saudosa.
    Eunice Sarmet

  12. Paula Finizola disse:

    Bom…posso roubar as palavras da Maria Helena só um pouquinho?! De fato foi um comentário SENSACIONAL para falar do post e da Cell…. De admiro muito, prima! Por sua graça escrevendo, por toda a luta na vida, por TUDO! Vc é ” A CARA”!
    Quanto as fotos, AMEI! O blog mais uma vez mostra o quão divertido e coerente é
    Beijos a todas!!!

  13. Helena disse:

    Marcelle mandou email da Austrália dizendo que noticias só na próxima semana. Mandou uma crônica nova sobre essa espera pelo resultado, que vamos publicar hoje