Voltando para casa

Ontem, nesse post, falamos de malas de viagem e voltar para casa. E hoje vamos falar de mais uma volta para casa.

Depois de alguns meses, desde sua última crônica, tenho o prazer de dizer que nossa colaboradora Marcelle está de volta ao blog e ao Brasil. Ela, seu marido, seus três filhos e toda sua bagagem, real e imaterial. E conversando, perguntei a ela: o que uma mulher, com tanta bagagem, carrega em sua bolsa na volta pra casa? Abaixo a resposta da Marcelle.

“Certa vez escutei de um professor de Mídia na Inglaterra que a alma da propaganda estava no antagonismo, no disdizer. Em Literatura, é um recurso poético chamado oxymoron: the use of contradictory terms (together) for effect, que talvez não seja tão perceptível quanto as metáforas, aliterações ou hipérboles.

Pois bem, eu começo esse texto com um oxymoron. Começo contradizendo a expectativa de que muito se traz na viagem de volta ao Brasil.

Pois bem, o que não trouxe?

Fiz questão de me livrar das quinquilharias. Acumular tralhas me parece comum em todos os lugares pelos quais passei. Na Austrália existe um comércio de Garage Sales, que é frequentado por todas as classes sociais. Acredito que esteja em sua cultura de reciclagem que o que não te serve servirá a alguém, um dia, quem sabe. Assim como eles não usam as sacolas plásticas e rigorosamente reciclam seus lixos ou rigorosamente obedecem às limitações de consumo de água, que são sinalizadas em toda a cidade, eles também guardam e vendem suas quinquilharias em suas garagens. Um evento social.

E reduzi 3 anos de vida em 27 caixas e 7 malas de 23 quilos.

O que não trouxe? O violão quebrado, que pensei que depois eu consertaria, que um dia pensei em aprender e nunca mesmo tentei; as roupas que um dia me serviram e nas quais eu talvez pudesse entrar de novo, ainda que não tenha conseguido nos últimos 15 anos; os 15 pares de havaianas, já que uma só me serviria para o resto da vida; o prato de vidro que minha sogra me deu.

Não trouxe comigo mil perfumes, o creme “nice and easy”, o único que deixa meu cabelo bom, tudo de eletrônico (afinal a Austrália é ali, pertinho da China), um estoque de blue-tack.

Não trouxe comigo nada que fosse acabar e me trouxesse essa ansiedade ou nostalgia de que não poderia viver sem aquilo.

Aprendi que você vive sem goiabada, suco de caju, pão de queijo, feijão preto ou mate.

Que cheesecake, roasts, cream teas são tão bons e deixam tanta saudade como o pãozinho francês e o cafezinho Pilão.

Não trouxe comigo o medo de recomeçar.

Na verdade, a mudança atracada no porto, presa a mil e uma burocracias, pela enésima vez em minha vida, me fez perceber que se vive com muito pouco. Muito mesmo.

As coisas que a gente acumula não nos fazem falta nenhuma. Isso eu trouxe comigo.

Também trouxe comigo as virtudes de cada pessoa que encontrei.

O otimismo e a resiliência dos brasileiros humildes que foram em busca de uma vida melhor.

A força e a superação daqueles que perderam entes queridos na sua ausência e que a distância não lhes permitiu que dessem seu último adeus.

Trouxe comigo a capacidade de muitos de se reinventar, quando seus diplomas, títulos e experiência foram desconsiderados.

Trouxe todo o vocabulário que aprendi, vivi e desenvolvi com todas as implicações de registro, cultura e regionalismo. Esse ninguém rouba de mim.

Trouxe as histórias de todos os livros, jornais e revistas que li. As que me contaram, e as que escutei. Como isso me abriu os horizontes, me mostrou outras verdades e um mundo tão maior do que o que eu pensava existir.

Agora, se você quer saber o que eu trouxe de mais valioso mesmo, posso dizer que foi algo em que esbarrei por acaso lá na Austrália.

A minha bagagem espiritual.

Conheci muitas pessoas que eram voluntárias em um projeto chamado TRAMS, que abraçava os muitos refugiados que moravam por lá. São muitos, mesmo. Essas pessoas, em sua maioria idosas, mas não na sua totalidade, trabalhavam dia e noite nessa sede, e fora dela, fazendo o bem. Cortavam grama, faziam quitutes, serviam de motorista para outros fazerem compras no supermercado, davam suporte com seus aparelhos eletrônicos, doavam suas roupas, sapatos, móveis, brinquedos, tempo e, por vezes, até suas casas. Elas davam tudo. Davam por dar.

Os clientes, por sua vez, também faziam de tudo para retribuir. Que delícia era entrar naquele ambiente. Que respeito ao outro essas nacionalidades exibiam.

Certa vez, quando eu mesma dava uma aula de inglês lá, olhei em volta da minha mesa e vi nacionalidades que estavam em guerra umas com as outras e ali todas trabalhando juntas, cooperando e trocando gentilezas entre si.

Com três filhos, um cachorro, uma casa enorme e jardim, com muito pouca ajuda, a última coisa que eu pensaria em outros tempos seria doar meu tempo (inexistente) sem nada receber em troca.

Mas assim, como quem esbarra no telefone, eu telefonei e doei um tempo que eu fiz para ajudar outras pessoas.

Não sei bem o porquê, mas por mais que tenha escutado críticas de que estava inventando moda para ficar ainda mais cansada ou piadas de que a vida não estava tão difícil assim, uma vez que estava sendo uma voluntária, eu enfrentei o desafio dessas manhãs.

O que eu ganhei em troca? O que eu trouxe comigo, muito mais que palavras possam descrever.”

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13 respostas para : Voltando para casa

  1. Marcelle says:

    Amei as fotos!

  2. Ligiadinardi says:

    Linda cronica, emocionante.
    Obrigada pela lição.
    Ligia

  3. Dani Rocha says:

    Lindo texto – você tem talento para traduzir suas emoções – não demore mais tanto para escrever!

  4. Slgmartins says:

    Parabéns!
    Silvio

  5. Marcelle says:

    obrigada Silvio, Dani e Ligia pelos comentarios.

  6. Fabiana says:

    Que experiência maravilhosa ! 

  7. Maria Alice Ferreira do Amaral says:

    Parabéns! Era tudo o que eu estava precisando ouvir hoje.
    Muito obrigada,
    Maria Alice

  8. D@ni says:

    Realmente conseguiu traduzir seus sentimentos em palavras e me fez pensar…

  9. Eunice Sarmet says:

    Gostei tanto que coloquei no Face. Continue escrevendo v. tem o dom! beijocas da comadre

  10. Reginasarmet says:

    Com tantos afazeres e obrigações como arrumou tempo para escrever um texto tão bem elaborado e interessante?Parabéns.Voce acaba de nos mostrar que quem quer ,faz.

  11. Reginasarmet says:

    Essa é a Marcelle que eu conheço,guerreira,destemida,bem humorada,corajosa,agradecida,e sempre linda,por dentro e por fora…te amo de montão….tive muita alegria quando vc nasceu e continuo tendo essa mesma alegria,,,,saude minha filha,deus te proteja de tudo…bjs Eu

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